Archive for the ‘Botafogo na Copa’ Category

Um conto de Mané

31/05/2011

Poucos clubes no mundo podem se dar ao luxo de escrever capítulos inteiros na história de suas seleções e aqui no Brasil, o país do futebol por excelência, apenas Santos e Botafogo têm essa honra. No Mundial de 1962, no Chile, a Seleção Canarinho já não era uma novidade e os feitos de Pelé e Garrincha assombravam o mundo da bola desde a vitória incontestável na Suécia, em 1958. Defendendo o título mundial e recheada de craques, a nossa seleção desembarcou em terras chilenas com a responsabilidade de repetir o bom futebol apresentado quatro anos antes.

Imarcável!!! Será esse o tal de Flowers? Mané não quis nem saber!

Já li e ouvi esse conto diversas vezes, mas nunca tão bem narrado quanto no livro de Nilton Santos, “Minha bola, Minha vida”, da editora Gryphus. Não à toa, é claro. Devemos lembrar que Nilton sempre esteve nas conversas dos amigos Sandro Moreyra e Armando Nogueira – onde um deveria contar “um causo” melhor do que o outro! Sem Pelé, machucado na segunda partida, o Brasil iria encarar a forte Inglaterra. Sandro Moreyra resolveu provocar Garrincha dizendo que o lateral inglês, Flowers, numa entrevista, dissera que o Mané não iria passar por ele de jeito nenhum. Garrincha ficou invocado e foi pedir conselhos para Nilton Santos:

– Nilton, o lateral deles disse que eu não era de nada!

– Ah, então ele nunca te viu jogar.

– Viu sim. Eu queria acabar com ele, mas não sei quem ele é.

– Acabe com todos os ingleses porque cada um deles pode ser o tal de Flowers!

O hilário diálogo entre os amigos resultou num dos maiores passeios da história da Copa do Mundo! Nilton Santos continua:

Garrincha ficou endiabrado. Dribles e mais dribles no time todo da Inglaterra. Dizem que o Aimoré ficou desnorteado no banco quando via o Mané correr por todo o campo a driblar todo mundo. Pedia a ele pra voltar para a ponta, segurando assim o zagueiro inglês. Ele não ouvia, continuava a fazer o seu carnaval. Marcou até gol de cabeça nesse jogo. Vavá fez um gol, sobra de bola de um chute violento do Mané em cima do goleiro. Depois, com um passe de Amarildo, encerrou o placar. Ali, Mané foi batizado de ‘O Anjo das Pernas Tortas’, que enlouquecia todas as defesas e fazia o Brasil acreditar ser impossível não sermos bicampeões.

De fato, mesmo sem Pelé, Mané acabou com os adversários e trouxe o caneco para casa. Leia o livro de Nilton Santos. Essa e outras histórias incríveis do nosso futebol estão lá, apenas esperando para serem redescobertas.

Vamos, FOGO!

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O Botafogo e a Copa do Mundo de 1938

31/05/2010

A terceira Copa do Mundo organizada pela Fifa, em 1938, com sede na França, pode ser considerada uma das mais tensas e politizadas da história. Os países europeus sofriam com graves crises econômicas e com os regimes ditatoriais que se espalhavam pelo continente.

Se em 1934, a vitória da Itália foi marcada pelo obscurantismo, o que esperar de uma competição envolvendo o fascista Benito Mussolini e o nazista Adolf Hitler?

As eliminatórias contaram com trinta e sete países inscritos para as quatorze vagas disponíveis – Itália, atual campeã, e França, país-sede, estavam automaticamente classificadas. A ausência mais sentida foi a da Espanha que estava mergulhada numa terrível guerra civil desde 1936 e a grande surpresa do mundial foi a participação da seleção cubana, representante da Concacaf.

Cuba se classificou graças a desistência dos outros países filiados na América do Norte e Central. Os cubanos conseguiram empatar com a Romênia em 3 a 3 e assim forçaram a realização do jogo extra. No dia 9 de julho, em Toulouse, a seleção cubana venceu os romenos por 2 a 1, avançaram para as quartas-de-final e terminaram a Copa do Mundo num surpreendente sétimo lugar.

Saudação nazista antes do jogo Alemanha x Suíça, em 1938

Jules Rimet, criador do mundial, convenceu a Fifa a realizar a competição na França, seu país natal, e não utilizar o esquema de rodízio entre Europa a América – a terceira competição deveria acontecer na América do Sul, possivelmente na Argentina. Em represália a essa artimanha, diversos países se recusaram a participar do mundial, entre eles a Argentina, Colômbia, Estados Unidos, México e Uruguai.

O Brasil, como ocorrera nos outros dois mundiais, ganhou a vaga de presente, já que os argentinos se retiraram da disputa. O selecionado nacional contabilizava três jogos em copas, sendo uma vitória por 4 a 0 na Bolívia, em 1930, e duas derrotas, 2 a 1 para a Iugoslávia, na estréia em 1930, e 3 a 1 para a Espanha, em 1934. As brigas entre paulistas e cariocas que sempre atrapalhavam a seleção foram deixadas de lado e dessa vez os jogadores tiveram uma preparação focada apenas para o futebol.

Seleção brasileira consegue o terceiro lugar em 1938

Enquanto os brasileiros se preparavam por aqui, a Europa vivia momentos conturbados: Hitler decide anexar a Áustria em 13 de março de 1938. A seleção da Áustria conseguiu a classificação disputando as eliminatórias, mas não entrou em campo contra a Suécia protagonizando o primeiro e único W.O. da história da Copa do Mundo.

Os jogadores austríacos também foram “anexados” e obrigados a se apresentar ao selecionado alemão que, mesmo com esse reforço de última hora, foi eliminado precocemente, ainda na primeira fase, após perder a partida-desempate para a Suíça por 4 a 2.

Em 1938, o futebol não era apenas um simples esporte

A Fifa manteve o mesmo modelo de disputa do torneio anterior e a Copa do Mundo começava direto na fase de oitavas-de-final, assim o campeão precisaria de apenas quatro vitórias para erguer a taça e quem perdesse qualquer jogo ficaria pelo caminho.

Duas frases podem dimensionar o que representava vencer aquele mundial. Os jogadores italianos receberam, antes da decisão contra a Hungria, o seguinte telegrama do Dulce: “É vencer ou morrer”. Após o jogo, comentando a derrota por 4 a 2 que deu o bicampeonato para a Itália, o goleiro húngaro Szabo sentenciou: “Salvamos a vida de onze homens”.

Seleção italiana é a primeira bicampeão mundial de futebol

A seleção brasileira nunca havia passado da fase inicial e os jogadores estavam dispostos a mudar essa história. No dia 5 de junho, em Strasbourg, o nosso selecionado venceu a Polônia, por 6 a 5, depois de levar o jogo para a prorrogação. A partida ficou marcada pelas fortes chuvas que transformaram o campo num lamaçal e por um lance inusitado: Leônidas da Silva anotou um gol com o pé descalço enquanto os auxiliares técnicos tentavam costurar a chuteira do craque que havia estourado.

O Brasil precisou enfrentar a Tchecoslováquia duas vezes para seguir até a semifinal. Depois do empate em 1 a 1 no primeiro jogo, os brasileiros fizeram 2 a 1 e iriam encarar a temível Itália, campeã do mundo de 1930. No que foi considerado o melhor jogo da Copa de 38, os italianos venceram por 2 a 1, seguiram direto para a final, enquanto a seleção brasileira, eliminada, ainda disputaria o terceiro lugar contra a Suécia.

O jogo Itália 2 x 1 Brasil foi considerado o melhor do mundial

Com uma campanha que incluía duas vitórias, um empate e uma derrota, a seleção encerrou sua participação com uma boa vitória por 4 a 2 sobre os suecos e com a honra de figurar entre as três melhores potências do futebol mundial pela primeira vez. Leônidas da Silva ainda foi o artilheiro do mundial com oito gols e dois brasileiros foram selecionados para a seleção de estrelas do mundial: o próprio Leônidas e o zagueiro Domingos da Guia.

O Botafogo foi representado por cinco atletas: o zagueiro Nariz, Martim Silveira – que jogou também em 1934 – e Zezé Procópio para o meio de campo e os atacantes Patesko, em sua segunda participação, e Perácio que marcou três gols na competição. Zezé, Patesko e Perácio foram titulares nas cinco partidas realizadas pela seleção brasileira.

O Botafogo e a Copa do Mundo de 1934

16/05/2010

A Itália foi a sede da segunda edição da Copa do Mundo em 1934. Ao invés de convite, como no primeiro mundial, dessa vez a Fifa instituiu uma fase classificatória para definir as dezesseis equipes que disputariam o torneio. A Europa ficou com doze vagas, a América do Sul duas, América do Norte uma e apenas o Egito representou o continente africano.

Com lugar garantido, o Uruguai, campeão em 1930, se negou a jogar na Europa em represália ao boicote europeu ao mundial da América do Sul quando apenas quatro seleções européias entraram em campo: Bélgica, França, Iugoslávia e Romênia. A Itália precisou encarar as eliminatórias para confirmar presença no evento, foi a única vez que a seleção do país-sede teve que jogar para se classificar.

A Copa do Mundo de 34 foi marcada pela polêmica. O regime fascista de Benito Mussolini transformou o evento em propaganda pró-governo e a vitória da Itália representaria mais do que uma simples conquista esportiva. Arbitragens suspeitas levaram os italianos para a grande final que aconteceu no Estádio Olímpico de Roma. Mussolini, acompanhado de 50 mil pessoas, assistiu a Angelo Schiavio, na prorrogação, marcar o gol que daria aos italianos seu primeiro título mundial: Itália 2×1 na Tchecoslováquia.

A história do Brasil na Copa de 34 foi curta. A seleção se classificou sem calçar as chuteiras graças à desistência do Peru, mas quando precisou jogar decepcionou. No dia 27 de maio, na cidade de Gênova, os brasileiros perderam por 3×1 para a Espanha e pegaram o navio de volta para casa. Leônidas da Silva anotou o tento verde e amarelo. Com apenas uma partida disputada, a seleção amarga uma das piores colocações em mundiais: 14º lugar entre 16 equipes.

O Botafogo cedeu nove jogadores para o selecionado daquele ano: o goleiro Pedrosa, o zagueiro Octacílio, além de Ariel, Canalli, Martim Silveira e Waldir para o meio campo, os atacantes Átila, Patesko e Carvalho Leite completam a relação.

Em pé: Carvalho Leite, Álvaro, Martin, André, Leônidas da Silva, Russinho, Patesko e M. Costa. Agachados: Octacílio, Alberto, Nariz, Canalli e Afonso.

Em 1934, o Alvinegro conquistava o terceiro título carioca seguido e tinha um ataque poderoso que infernizava as defesas adversárias. Patesko era considerado o melhor ponta-esquerda da época e foi convocado diversas vezes para a seleção. O atacante foi vice-campeão do Sul-Americano de 1937 e fez parte do selecionado que conseguiu o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1938.

O Botafogo e a Copa do Mundo de 1930

14/05/2010

O Botafogo de Futebol e Regatas é o clube que mais cedeu jogadores para a seleção brasileira em edições de Copa do Mundo. Todos sabem disso, até criança no jardim de infância já ouviu essa máxima do nosso futebol, mas uma empresa de comunicação – que prima pela isenção de seus jornalistas – catou daqui, somou dali, tirou os nove fora e arrumou um jeitinho de botar o clube da Gávea na jogada.

Eles alegam que somando todas as convocações, incluindo amistosos sem sentido e até jogo de botão, o clube da lagoa leva vantagem. Pois bem, estamos falando em Copa do Mundo e não em torneio de amadores. Em jogos de Copa do Mundo, no famoso “Vamô vê de verdade”, onde se separa os meninos dos homens, bem, nesse caso só dá Botafogo.

Com o reforço de três botafoguenses, seleção bate a Iugoslávia em amistoso

A primeira Copa do Mundo foi disputada em 1930 no Uruguai, entre os dias 13 e 30 de julho, e a seleção não passou da primeira fase. O Brasil estava no Grupo 2 com Iugoslávia e Bolívia. A estréia em mundiais aconteceu no dia 14 de julho e foi com derrota: 2×1 para a Iugoslávia, gol de Preguinho. A vitória por 4×0 sobre a Bolívia, gols de Moderato (2) e Preguinho (2), no dia 20 de julho, não trouxe a classificação, já que os iugoslavos também venceram esse duelo. O selecionado brasileiro terminou o primeiro mundial na sexta colocação.

Uma briga entre paulistas e cariocas enfraqueceu o selecionado que contava com apenas um paulista: Arakem do São Paulo. Nesse mundial, o Botafogo foi representado por quatro jogadores: o zagueiro Benedicto, o meio campo Pamplona e os atacantes Nilo e Carvalho Leite.

Pamplona e Benedicto fizeram parte da geração vitoriosa da década de 30, quando o Alvinegro carioca venceu cinco estaduais, incluindo o tetra campeonato carioca em 32-33-34-35. As quatro estrelas que o Botafogo ostentava, bordados acima do escudo, faziam referência a esses títulos.

Nilo é o quinto maior artilheiro da história do clube com 190 gols em 201 partidas (uma média altíssima de 0,94 gol/jogo) e também participou da conquista do tetra carioca, sendo o goleador máximo da competição de 1932 com 19 gols.

Carvalho Leite foi o primeiro grande ídolo da história do Botafogo Football Club e, como Nílton Santos, só vestiu a camisa alvinegra e a da seleção brasileira. Foram onze anos servindo ao Glorioso, entre 1930 e 1941, muitos títulos, e 273 gols marcados em 326 jogos (média de 0,83 gol/jogo).